espiral: da sensibilidade, conhecimento, liberdade

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Ensino - geral
Escrito por Euler Sandeville Jr.   
Qui, 11 de Março de 2010 16:15

Depois de muito estudar, chegaremos ao ponto inevitável: o óbvio e o complicado. O estudo constrói um mundo sobre o mundo. Sabe-se, portanto, o que já se sabia, pois o saber fica cativo de um sistema de conhecimento que se impõe a priori como um círculo e uma revolução sobre si mesmo, em relação a si mesmo. Na prática, sabe-se o que já se sabia, o que um olhar com bom senso e atenção, sem pretensão, traria com alegria e liberdade.


Invejando o mundo, o sobremundo, depois de estruturado, quer explicá-lo, fazer o mundo parecer pronto e parecer com ele, a fim de conduzi-lo, de chamar o mundo de distração e o sobremundo de conhecimento. Ilusão de poder é luta pelo poder. O estudo no sobremundo conduz ao mesmo ponto, o que já se sabia. Corre atrás de aprisionar o mundo no sobremundo, para dar a ilusão de que está em processo, de que é necessário para o mundo. Acabamos tendo que dedicar o pensamento não para estudar o mundo, mas para estudar o sobremundo no mundo, isto é, somos levados a reproduzí-lo, a aprisionar o pensamento nessa tosca prótese que o permite andar com segurança, olhando de longe, olhando de cima o mundo.


Então, sabendo disso, para que estudar tanto? Curiosamente, para um projeto inverso. Para libertar o pensamento, não do mundo e suas aparências, mas da idealização e falsa-concretude do sobremundo. Porque, de outra forma, não seremos ouvidos pelos sistemas guadiães que impedem com ferocidade o óbvio, o claro, o evidente, detratando-o, para que os termos sejam definidos pelo complicado, pelo hermético, pelo obscuro, pelas mediações e não pela vida. Já não se trata de investigar o mundo pelo pensamento, presunção desmedida e insegurança inconfessável, mas de libertar o pensamento pelo mundo, deixando-o simplesmente ser vento, sorriso, alegria, dor, compartilhar, reinventar.


O sobremundo está em vantagem, porque o mundo retorna como sua invenção, porque suas intenções de poder no âmbito dos sistemas que o abrigam não são confessáveis e não podem ser mencionadas, pois pensa ter retido em si os instrumentos todos do pensamento, porque dispõe de próteses e artifícios que escarnecem do comum, intimidando-o com o peso de séculos de páginas escritas, que estruturam a base do sobremundo como independente do mundo. Daí o terror do pensamento protético, o sobremundo não existe senão como invenção, como força explicatória a forçar o real para dentro de si, o pensamento protético não sente-se seguro senão em sua própria sombra.


Mas, por outro lado, o sobremundo está em desvantagem, porque é a vida que cria o pensamento, e ela não habita o sobremundo, nem precisa dele, ela faz o mundo habitá-la, ser. Não se trata da ilusão do que o pensamento pode fazer pela vida, porque ele mesmo existe na vida, trata-se do óbvio, o que a vida pode fazer pelo pensamento, se este permitir-se tocá-la, fluí-la, sentir-se em casa e não olhando para ela como um expatriado tristonho. Mas deve-se dizer assim, com cuidado, como se não houvesse nada dito, para que não se perceba que percebemos.

 

Euler Sandeville Jr.

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